Sunday, 15th October 2006


Soja já ameaça a Amazônia


Monocultura que elimina a biodiversidade se espalha pelo país e, agora, já ocupa terras na maior floresta tropical do planeta

by Gisele Barbieri




From BrasilDeFato Website


O novo governo sofrerá uma forte pressão dos “homens do agronegócio”. Essa é a análise que faz o geógrafo da Universidade de São Paulo (USP) Ariovaldo de Oliveira sobre as perspectivas para as políticas do campo.

Oliveira critica o excesso de importância dado à cultura da soja no país, salientando que o grão é apenas matéria-prima para a produção de alimentos industrializados, e não fonte de alimentação. Para o professor, os “homens do agronegócio” tentarão conseguir mais recursos para restabelecer o mercado das exportações, já que o setor teve sua lucratividade reduzida nesse momento, (leia também) apesar do apoio incondicional do governo federal a estes grandes produtores.

“O agronegócio é o responsável pela existência de grandes monopólios exportadores que impõem o preço do produto no mercado”, avalia o geógrafo. Desta forma alimenta-se, segundo ele, a política de exclusão dos pequenos agricultores que são responsáveis por 34% da produção de soja no país, mas perdem seu poder de negociação para as grandes empresas transnacionais.

Empresas como a Cargill e Bunge, exportadoras de soja brasileira, juntamente com mais duas empresas do ramo, controlam 70% das exportações no comércio mundial de grãos. “No Brasil, quem produz não exporta, aí está o prejuízo dos pequenos”.

Cultura em expansão

A área plantada de soja no Brasil cresceu quase 150% em 15 anos passando de 9 milhões, para 22 milhões de hectares. Somente no Mato Grosso, a área plantada com a semente subiu de 1 milhão para 5,4 milhões de hectares no mesmo período.

A monocultura da soja leva também às diversas regiões do país os danos ao meio ambiente provocados por uma cultura que promove a devastação das florestas e o esgotamento das nascentes dos rios. Os agrotóxicos despejados por aviões e tratores contaminam o solo, água, ar e as plantações camponesas, causando doenças e mortes. É o que constata a Articulação Soja - organização criada em 2003 pelo Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente, Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Sul do país (Fetraf-Sul) e outras entidades -, que cita também a redução da biodiversidade como conseqüência da monocultura.

A soja, que começou a ser plantada no Rio Grande do Sul, já chegou a outras regiões do país, inclusive a Amazônia, onde o desmatamento da floresta para a plantação de lavouras de soja e de outras culturas já atinge as cabeceiras do Parque Xingu, com impacto junto à população indígena. No Piauí, por exemplo, o avanço da monocultura já deixou um rastro de destruição ambiental. Dos 252 mil quilômetros quadrados de área do Estado, 37% são de cerrado. Deste total, 50% já foram desmatados pelas lavouras de soja. No Maranhão, também já se percebe várias regiões desmatadas, águas contaminadas por inseticidas e exploração de trabalho escravo e infantil, segundo relatos feitos pela Articulação Soja durante a quinta edição do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.

Um recente estudo divulgado pela ONG Conservação Internacional apontou 34 regiões, que abrigam grande biodiversidade, ameaçadas em todo o planeta. No Brasil, a Mata Atlântica e o Cerrado são áreas diretamente ameaçadas pelo avanço da monocultura da soja.


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